Ontem, pela primeira vez este ano, e pela primeira vez após a presidência europeia portuguesa, ouvimos o Primeiro-ministro (PM) em entrevista . Durante 50 minutos, Ricardo Costa (SIC) e Nicolau Santos (Expresso), entrevistaram o PM em jeito de balanço dos seus três anos de governação, abordando essencialmente quatro áreas da política nacional: economia, saúde, educação e política geral. Ouvimos um PM a falar do que prometeu e cumpriu (ou diz ter cumprido) , do que não prometeu mas acabou por atingir e mesmo do que prometeu e não consegui cumprir, ou seja, a promessa de não aumentar impostos que violou logo no início do seu mandato.
Esta era uma entrevista que aguardava há imenso tempo. Com tantas polémicas em torno das últimas intervenções governativas e com tanto desgaste sofrido de manifestação em manifestação, havia muitas respostas que estavam a precisar de serem agarradas pelos "chifres". Ainda para mais, o último debate mensal ficou marcado por perguntas da oposição que ficaram sem respostas concreta por parte do PM.
Contudo, surpreendentemente, "A entrevista da SIC e do Expresso a Sócrates não foi uma entrevista, foi uma sessão de propaganda."(Vasco Pulido Valente, Público, 19-02-2008). Obrigado, Vasco, eu próprio não diria melhor! Eu sabia que um dia estaríamos de acordo.
É verdade, a entrevista correu muito bem ao PM, como muitos comentadores já o afirmaram. Mas também, pudera, a falta de agressividade demonstrada ao longo de toda a entrevista por parte dos entrevistadores funcionou plenamente como uma passadeira vermelha para o Eng.º José Sócrates recuperar alguns dos votos perdidos durante o último semestre de 2007 e neste começo de 2008. Foi por vezes irritante a previsibilidade das questões que iam sendo colocadas ao PM, permitindo-lhe estruturar uma estratégia demagoga para responder às questões centrais que se colocam actualmente sobre a sua governação - e que bem que ele faz isso.
O PM camuflou algumas questões que precisavam ser respondidas de forma directa com a apresentação de objectivos estratégicos definidos há três anos atrás em altura de campanha eleitoral. Desde logo, vamos continuar sem ter respostas para perguntas como: (I) se sempre vai haver avaliação de professores durante esta ano lectivo e em que moldes se irá fazer; (II) se os alunos de música deste país vão continuar a ter apoio para o desenvolvimento da sua formação específica ou se serão engolidos num sistema conjunto de ensino básico de música, (III) qual o objectivo nacional de tamanho malabarismo sobre os 94 mil posto de trabalho já criados quando a taxa de desemprego se encontra elevada e sem perspectivas de descida significativa nos próximos tempos (afinal, pouca influência terá este governo no mercado laboral quando temos um mercado global livre e somos um país tão exposto a influências externas); (IV) o que se espera para 2009 para uma economia portuguesa tão dependente dos nossos vizinhos espanhóis que estão a prever um decréscimo acentuado na sua economia para os tempos que se avizinham; (V) qual a razão para a reforma do sistema nacional de saúde que estamos a verificar e afinal o que será o futuro dessa reforma com a mudança de ministro e com as providências cautelar em decurso (contudo, ficámos a saber que Guarda, Covilhã e Castelo Branco vão ter de "brigar" para saber quem fica com e sem maternidade... é assim que se decide em Portugal).
Não era esta a entrevista que precisávamos. Já passou o tempo de princípios gerais de governação. É preciso falar em medidas concretas e porque não, em alguns casos particulares. Mas eu percebo... afinal, está dado o tiro de partida para as eleições de 2009. Porque, em jeito de conclusão, vejam o tema que faz as manchetes dos jornais portugueses de hoje - Eng.º Sócrates mantém tabu relativamente à sua candidatura a PM em 2009. Como se isso fosse o mais importante para o país no momento actual.
(Nota: Chamei Eng.º Sócrates ao nosso PM, e hei-de continuar a chamar, porque é assim que trato todos os meus colegas com licenciatura ou bacharel em Engenharia Civil. Tal como ele, também esses meus colegas se designam a eles próprios por Engenheiros. A questão, para mim, está no título "Engenheiro" e no valor que lhe é dado.)
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